o sim e o não, o alfa e o ômega, a langue e a parole, o yin e o yang.

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16 abril 2025

Nem li nem lerei


O Facebook já foi a arena onde as pessoas discutiam os mais variados temas. Diferente de fóruns, onde você procura tópicos de seu interesse, no Facebook o algoritmo é quem decide com que você vai gastar seu tempo — seja esse textão ou o nascimento do filho de uma antiga colega de colégio ou um vídeo de lontras interagindo com capivaras. O problema é que hoje, não tem mais ninguém por lá.

Já reclamei por aqui a ideia de que a gente é dominado por esse formato de arena das redes sociais e que se a gente não publica nelas a gente nem sequer é visto. Já em 2015 eu já dizia que ninguém visitava blogs. Por isso eu publicava no blogspot e deixava o link no Facebook  e ninguém clicava. Hoje, o seu substituto, o Instagram, já nem deixa postar links (até deixa, mas tem validade de 24 horas num story). E o substituto do substituto, o TikTok, pede que a gente poste vídeos  e minha habilidade de escrever redações dissertativas de até 15 linhas se perde.

A internet 2.0 trazia a ideia de que a internet era feita de pessoas (gente burra, como dizia um aí (e que eles iam dominar o mundo, porque são muitos — como dizia algum outro)), mas logo a gente descobriu que a internet 2.0 seria dominada pelas big techs e a praça pública passou a ser privada e cheia de propaganda. Fiz um levantamento rápido, e das 30 primeiras publicações que apareceram no meu feed do feice, 13 eram de páginas que eu não sigo ou publicações pagas. E, com isso eu recebo publicações sobre o Neymar, sendo que eu nem acompanho futebol, e não fico sabendo que a tal antiga colega do colégio já teve, inclusive, seu segundo filho.

Tudo isso pra dizer que vou tentar voltar a escrever minha coluna de opinião. Sei que já prometi isso antes, mas quero tentar exercitar minha escrita e deixar registrado o processo de pensamento que me fez chegar até aqui. Optei por manter no blogspot em vez de outras redes novas especializadas em textos (como o Medium), porque, já que de qualquer forma precisamos clicar num link (no facebook ou no instagram ou em qualquer nova rede que vier a substituí-las), que seja para o mesmo lugar que eu já publico a tanto tempo — desde 2007, no caso. Se for pra ser ignorado, que seja num lugar que eu escolhi. E se você está lendo isso, parabéns: escapou do feed por 0,3 segundos.


05 abril 2016

o Facebook e a nossa visão de mundo

Não diria que é da natureza humana; diria, talvez, que é da natureza das sociedades humanas ou, pelo menos, das sociedades ditas modernas. A gente tende a procurar informações que complementem aquilo que a gente já pensa; a gente sempre tenta andar com pessoas que concordam com a gente. O Facebook sabe disso e nos alimenta só com notícias que a gente quer ouvir – ou, no mínimo, aquilo que o Facebook quer que a gente queira ouvir.

Estudos apontam que 96% dos jovens brasileiros acessam a internet todos os dias; e que, desses, cerca de 80% acessam as famigeradas redes sociais. Isso quer dizer que a maior parte da juventude brasileira se comunica pelo feice ou pelo zapzap. O que, por um lado, é ótimo, já que cada vez mais a galera está se informando por meios alternativos; e, por outro lado, é péssimo, já que cada vez mais a galera está se informando por meios alternativos.

Por razões que vale a pena discutir, as pessoas, que até bem pouco tempo enchiam a boca pra falar que não gostavam de política, hoje estão discutindo política. As discussões ainda estão bastante superficiais e enviesadas, mas pelo menos elas acontecem. O problema é a falta de criticidade das pessoas; as pessoas acreditam em tudo que o william boner diz e em tudo que os memes dizem.

(Paweł Kuczyński)
E, graças a essa mesma internet, um outro grupo de pessoas se interessou por política e teve a paciência de pesquisar e ir atrás e tentar entender como funcionam as coisas e comparou visões contraditórias e procurou formular sua própria opinião. 

Só que pra essa geração o Facebook ainda é o principal meio de comunicação; ou, no mínimo, um ponto de partida. As pessoas podem até curtir páginas de conteúdo bastante variado e ser amigo de gente de todos os naipes; mas o Facebook, com uma lógica que só ele entende, decide o que aparece no seu feed de notícias. Assim, os pontos de vista que a gente vê no feed são cada vez mais parecidos com os nossos.

E, pra essa geração que ainda está na adolescência da internet, isso só pode ser ruim. Em tempos de extremismos e gente inflamada, ouvir apenas aquilo que nos agrada nos leva a extremizar ainda mais nossas posições. Quando eu apenas ouço a respeito de A, o B vai se tornando cada vez mais caricato e irreal; o A passa a ser a verdade e o B, por ser o inimigo, vai tomando as feições de tudo aquilo que a gente tem medo ou não quer que aconteça.

Disso é fácil chegar na conclusão de que petralhas adoram o demônio e que coxinhas querem a volta da escravidão. 

Embora você provavelmente só tenha chegado nesse texto justamente devido ao Facebook, o ideal seria que a gente saísse de lá e se comunicasse por meios mais democráticos. Mas, pensando no uso que a gente tem feito dele – ler as manchetes, curtir as fotos e ir pra próxima postagem –, acho que não nos livramos dele tão cedo.