o sim e o não, o alfa e o ômega, a langue e a parole, o yin e o yang.

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03 outubro 2016

Quem a democracia representativa representa?

No episódio de hoje, aprendemos que a população não está satisfeita com a democracia representativa. Em muitas cidades, geral decidiu não votar em ninguém. Só pra falar de capitais, em 8 delas o número de eleitores que decidiu não votar em nenhum deles foi maior do que o número de votos no candidato mais votado. No Rio de Janeiro, o número de nulos, brancos e abstenções dá quase o mesmo tanto que o número de votos nos TRÊS candidatos mais votados.
No episódio de hoje, aprendemos também que, mesmo que mais da metade dos eleitores votem nulo, a eleição NÃO É anulada e novas eleições NÃO SÃO CONVOCADAS em 45 dias. 


É fato que esse modelo de democracia representativa já não representa os interesses de boa parte da população. Mas é fato também que as greves e os movimentos de rua já não têm mais a mesma força que um dia tiveram; por um lado, pela falta de adesão, mas, mais importante, pela falta de credibilidade. O maior movimento de rua dos últimos anos, em junho de 2013, não levou a nenhuma mudança real na política brasileira; os movimentos de rua que tentaram parar o impeachment da Dilma não surtiram nenhum efeito. E os movimentos que derrubaram a Dilma só surtiram efeito porque era a grande mídia que movia as marionetes: só esperar os movimentos de rua em 2017 contra o Temer.

O que tem acontecido é que “uma parcela mais politizada da população” está desacreditada da nossa democracia e decidiu não votar em ninguém. O problema é que as regras de nossas eleições simplesmente ignoram essas pessoas. Assim, o voto das “pessoas menos politizadas”, no fim das contas, vale mais do que valeriam. Na ânsia de se posicionar contra o fluxo, essa galera acaba fortalecendo o fluxo. 

De maneira alguma me posiciono contra o voto nulo ou a abstenção; se o sistema não nos representa, é justo querer boicotá-lo. A minha crítica em relação à negação do sistema. Porque se opor ao sistema é o mesmo que dizer que não faz diferença ser governado por um partido que se diz progressista contra ter no governo um partido ultraconservador.


Comparemos a eleição com uma doença terminal. [a comparação é péssima, eu sei.] Você pode escolher entre fazer uma cirurgia que pode te matar no processo e que pode não curar totalmente a doença ou tentar um tratamento com medicamentos em um spá nas montanhas. Nenhum deles é garantido; nenhum deles garante a cura; a probabilidade de morrer é alta em todo caso. A escolha está em decidir qual deles é o menos doloroso. Ou dá pra simplesmente se entupir de analgésicos e não lutar contra a doença. Você que escolhe.

Um sistema ideal era um sistema que você não tivesse doença. O ideal é lutar pra que ninguém mais adoeça. Concordo com tudo isso. Mas agora que a doença está aí, que as opções são essas, o que nos cabe fazer?

Debato os métodos que tem se adotado para a revolução, mas acredito de verdade que a única forma de mudar alguma coisa é a gente implodir o sistema e mudar as regras do jogo. Mas enquanto isso não acontece, o que temos é essa democracia lixo que a gente tem. E a gente não pode dizer que o que os governantes fazem não nos diz respeito.

19 abril 2016

E o impeachment, ein?

Para entender as pedaladas fiscais:

Era fim de mês e acabou faltando dinheiro pra comprar comida. Sem falar nada, o marido foi lá e usou o cartão de crédito. Na semana seguinte veio a conta e ele já tinha o dinheiro e pagou tudo direitinho.

E aí a esposa descobriu que ele fez isso sem consultá-la.

Ela deve pedir o divórcio?

Aí ela pergunta pros filhos: "pedalada fiscal deve ser considerado crime de responsabilidade?".

impítximã
E eles respondem:
- pelo Tobi, o cachorro, eu voto sim!
- por causa da janela do meu quarto, eu voto sim!
- em homenagem aquele cara que bateu no papai aquela vez até quebrar os dentes e entortar a mandíbula, eu voto sim!

O outro filho disse que o pai merece um puxão de orelha e que ele deve avisar sempre que for sair do combinado e que o divórcio deve ser pedido se ele fizer alguma coisa mais grave.

As outras crianças alegaram que ele só disse isso porque o pai dá pão com mortadela pra ele.

05 abril 2016

o Facebook e a nossa visão de mundo

Não diria que é da natureza humana; diria, talvez, que é da natureza das sociedades humanas ou, pelo menos, das sociedades ditas modernas. A gente tende a procurar informações que complementem aquilo que a gente já pensa; a gente sempre tenta andar com pessoas que concordam com a gente. O Facebook sabe disso e nos alimenta só com notícias que a gente quer ouvir – ou, no mínimo, aquilo que o Facebook quer que a gente queira ouvir.

Estudos apontam que 96% dos jovens brasileiros acessam a internet todos os dias; e que, desses, cerca de 80% acessam as famigeradas redes sociais. Isso quer dizer que a maior parte da juventude brasileira se comunica pelo feice ou pelo zapzap. O que, por um lado, é ótimo, já que cada vez mais a galera está se informando por meios alternativos; e, por outro lado, é péssimo, já que cada vez mais a galera está se informando por meios alternativos.

Por razões que vale a pena discutir, as pessoas, que até bem pouco tempo enchiam a boca pra falar que não gostavam de política, hoje estão discutindo política. As discussões ainda estão bastante superficiais e enviesadas, mas pelo menos elas acontecem. O problema é a falta de criticidade das pessoas; as pessoas acreditam em tudo que o william boner diz e em tudo que os memes dizem.

(Paweł Kuczyński)
E, graças a essa mesma internet, um outro grupo de pessoas se interessou por política e teve a paciência de pesquisar e ir atrás e tentar entender como funcionam as coisas e comparou visões contraditórias e procurou formular sua própria opinião. 

Só que pra essa geração o Facebook ainda é o principal meio de comunicação; ou, no mínimo, um ponto de partida. As pessoas podem até curtir páginas de conteúdo bastante variado e ser amigo de gente de todos os naipes; mas o Facebook, com uma lógica que só ele entende, decide o que aparece no seu feed de notícias. Assim, os pontos de vista que a gente vê no feed são cada vez mais parecidos com os nossos.

E, pra essa geração que ainda está na adolescência da internet, isso só pode ser ruim. Em tempos de extremismos e gente inflamada, ouvir apenas aquilo que nos agrada nos leva a extremizar ainda mais nossas posições. Quando eu apenas ouço a respeito de A, o B vai se tornando cada vez mais caricato e irreal; o A passa a ser a verdade e o B, por ser o inimigo, vai tomando as feições de tudo aquilo que a gente tem medo ou não quer que aconteça.

Disso é fácil chegar na conclusão de que petralhas adoram o demônio e que coxinhas querem a volta da escravidão. 

Embora você provavelmente só tenha chegado nesse texto justamente devido ao Facebook, o ideal seria que a gente saísse de lá e se comunicasse por meios mais democráticos. Mas, pensando no uso que a gente tem feito dele – ler as manchetes, curtir as fotos e ir pra próxima postagem –, acho que não nos livramos dele tão cedo.

20 março 2016

E o Lula, ein?

Nos últimos dias, milhões de brasileiros foram às ruas mostrar sua indignação com a situação política do nosso país. As análises sempre nos apontam uma polarização política: como se nessa discussão existissem apenas dois lados, como se só existisse um muro pra ficar em cima. A mídia faz acreditar que ou se apoia o impeachment (ou o golpe) ou se defende a democracia (ou o governo corrupto do pt); sendo que na verdade o buraco é muito mais embaixo e não só dois lados nesse debate.

Numa análise bem superficial, dá pra ver pelo menos dois antagonismos: de um lado os que defendem a saída de Dilma da presidência, uma vez que com os casos denunciados de corrupção a sua permanência não se sustenta; e, do outro lado desse cabo de guerra, estão os que defendem que as acusações é que não se sustentam e que ainda não há provas concretas contra ela e que ela precisa antes ser condenada para depois ser impedida. Numa outra polarização, estão os que acusam a mídia e o judiciário de serem parciais e tentarem manipular a opinião pública a fim de tirar do governo o partido que ganhou as eleições; e, nessa disputa, os contrários apontam que a justiça está apenas fazendo o seu trabalho (“agora os corruptos do pt, depois todos os outros”).

Me parece que essas polarizações só empobrecem o debate; me parece muito ingênuo acreditar em soluções tão simples pra um momento tão delicado como o que estamos vivendo. Mas, mesmo assim, na minha superficialidade e assumida ingenuidade, levanto alguns questionamentos.

As principais acusações contra o governo vieram da Operação Lava Jato (ou Lava-Jato ou Lavajato?); a principal delas vieram de um senador (ex-)petista, que, depois de ser pego, acusou todo mundo do governo no seu acordo de delação premiada. Eu questiono se não poderia existir interesses do senador em fazer essas acusações, sem poder prová-las, apenas para denigrir o governo. Ou, pior: e se lhe pagaram propina para que ele fizesse essas acusações a fim de beneficiar alguém – afinal, ele já foi preso por corrupção, não é?

E muito foi discutido sobre a quantidade de pessoas que foram às ruas. Os organizadores do protesto verde-amarelo e a mídia disseram que esse foi maior; os organizadores das manifestações vermelhas disseram que seu protesto foi mais representativo. Cada um dos dois grupos dizendo representar a vontade do povo. Concordo com o argumento de que, se fosse pra disputar em número de pessoas, deveria prevalecer o resultado das urnas em 2014.

Mas, por outro lado, quem deveria ser responsável em destituir um presidente (ou qualquer cargo eletivo) deveria ser os responsáveis por elegê-lo; assim, caberia ao povo decidir sua saída, e não o legislativo. Ou seja, o passo final do rito do impeachment deveria ser um referendo popular convocado para destituir ou não a pessoa eleita. Só que, antes, a pessoa precisaria, com direito a defesa, ser condenada judicialmente. Porque não faz sentido destituir uma pessoa eleita porque ela não agrada quem não votou nela.

Só que o debate não se encerra nesta questão, tem muita lenha pra ser jogada nessa fogueira ainda.

31 outubro 2015

Sobre ENEM e violência contra mulher e ser babaca

Há poucos dias 7milhões de brasileiros fizeram a prova do ENEM. No sábado teve Marx e Beauvoir; no domingo, uma redação sobre violência contra a mulher. E, por isso, as pessoas entraram em frenesi porque a prova era esquerdista e doutrinadora marxista e tudo que há de ruim no mundo.

No facebook só se falou disso – o que é excelente! Se por um lado teve gente que comemorou que essas coisas estejam sendo colocadas em debate, teve gente que disse que a prova não era imparcial, que 31% das questões eram de esquerda, que é o PT, que não existe violência contra mulher – existe violência. E tantas outras babaquices.

Antes de qualquer coisa, é preciso ter em mente que simplesmente não existem Ciências Humanas sem ideologia; não existe essa tal de imparcialidade que os críticos da prova almejam. No extremo, não existe ciência sem ideologia. Já li vários estudos científicos defendendo que o homem precisa de alimentação a base de carne e vários estudos defendendo justamente o contrário; vira e mexe aparece na mídia estudos dizendo que ovo é vilão ou mocinho – isso só pra falar de alimentação.

Então, quando uma pessoa vai lá e faz um estudo e diz que “a globalização gera desemprego”, ela não tá apenas dizendo a opinião dela, é sim uma afirmativa científica, que sim gera debates e estudos que digam o contrário. Quando colocaram essa questão na prova, sabiam que essa questão era “ideológica”, mas sabiam que seria ideológica se eles colocassem um autor que dissesse qualquer outra coisa.

Simone de Beauvoir disse coisas que abalaram o pensamento de sua época. E, ironicamente, a rejeição foi em grande parte não por ela defender as mulheres, mas por ser mulher. E é irônico pensar que a rejeição em relação a ela, cinquenta anos depois, ainda é pelos mesmos motivos. A questão do ENEM não perguntava se era certo ou errado o que ela dizia, nem que devemos sair queimando sutiãs ou dizendo que mulheres devem ser tratadas como gente. A prova levantava a relação entre o pensamento filosófico dela e sua relevância histórica.

A prova foi tachada de esquerdista, comunista e o diabo aquático. Mas não existe relação entre ser de esquerda (ou de direita) e ser (ou não) um babaca. A redação no domingo propunha que o aluno discorresse sobre a violência contra a mulher; o aluno era convidado a pensar sobre o assunto e posicionar-se criticamente, oferecendo possíveis soluções para o problema. E isso não tem nada a ver com espectro político: a defesa dos direitos humanos é um dever de pessoas civilizadas!

As pessoas que demonizaram a prova não são pessoas de direita, são analfabetos políticos. A militância de esquerda que o Brasil precisa não é contra pessoas de direita – essas, infelizmente, conheço poucas; a militância é contra um conservadorismo ignorante que não estudou mais do que o mundo em que ele vive, incapaz de se por no lugar do outro, seja quem for.

Uma vitória dessa prova foi trazer essas questões para a discussão. Obrigatoriamente, 7milhões de brasileiros tiveram que pensar sobre violência contra a mulher; por tabela, o assunto foi trazido às rodas de discussão de outros milhões de brasileiros. Debater o assunto não é nem de longe suficiente para resolver o problema, mas faz com que as pessoas reflitam e se posicionem e comecem a mudança. Quem sabe daqui alguns séculos mulheres não sejam mortas simplesmente por serem mulheres.

17 setembro 2015

Qual Esquerda, afinal?

As sociedades humanas sempre foram construídas sobre relações de poder; sempre alguém mandava e outro alguém obedecia. Sempre foi assim. Não arrisco dizer se sempre vai ser. Não arrisco dizer se é algo inato – acho que não é.

Se no começo da humanidade essa relação era de força, logo passou a ser disputada politicamente. Como acontece em comunidades de vários animais, a disputa acontecia no braço: o mais forte sobrevive e domina. Muito provavelmente desde aí surgiram os primeiros passos do machismo: homens têm a força e mandam; as mulheres obedecem. E não muito depois, como acontece com os gorilas (vi num documentário no NatGeo), um macho decide ser submisso a um macho alfa e deixar que ele comande – para evitar a fadiga.

Com o passar dos séculos, as relações de poder começaram a se sofisticar. Era o poderoso aquele que tinha em sua jurisdição uma plantação maior, por exemplo. Depois, povos passaram a se achar mais que os outros simplesmente por nascerem aqui ou ali, com sangue frio ou azul; alguns povos passaram a escravizar outros.

O mundo “evoluiu” e esse sistema de hierarquização de poderes foi naturalmente abraçado pelo capitalismo. O poder agora é simbolizado pelo dinheiro. E aqueles que acumulam dinheiro e exploram os que não tem é que são os realmente poderosos. As outras relações de poder foram facilmente absorvidas por esse sistema, no qual é bastante produtivo que algumas pessoas sejam naturalmente deixadas abaixo na pirâmide – ou, pior, às margens da pirâmide.

E a religião e as escolas estão aí para reforçar essas relações de poder e mantê-las o mais estável possível.

Algumas das relações de poder são impostas pelo sistema. Ter dinheiro é vantagem dentro desse sistema; assim, quem tem mais dinheiro manda mais: quanto mais dinheiro mais poder, quanto menos dinheiro menos poder, mais submissão. Nascer em berço de ouro faz de você naturalmente poderoso. Ainda, dentro desse sistema, ser detentor do conhecimento é uma vantagem; estudar é uma arma até bem pouco tempo negada à maioria da população. E não é à toa que as escolas não são tão eficientes quanto bancos dentro desse sistema.

Por razões historicamente facilmente traçáveis, ser branco do sexo masculino heterossexual cisgênero e humano é vantagem nesse sistema. Consequentemente, ser negro, ser mulher, ser gay ou lésbica é ser obrigado a fazer parte daqueles que obedecem; mas, como resultado de lutas históricas, essas pessoas passaram a ter mais direitos, embora, claro, essa luta ainda precise avançar muito – mas, de qualquer forma, já é possível encontrar (ainda que excepcionalmente) membros desses grupos sendo líderes de alguma forma.

As pessoas trans, por sua vez, por imposição desse sistema ficam às margens desse sistema – é quase como se elas fossem não-pessoas; as exceções de pessoas trans com algum tipo de poder são ainda mais raras (pior ainda se fizerem parte de outros grupos minoritários) por isso que as taxas de homicídios (e suicídios) dentro desses grupos são assustadoramente mais altas que nos demais grupos.

E fora de todo o sistema estão todos os seres não-humanos; o sistema não admite direitos para esses seres – na lógica do sistema, esses seres existem para serem explorados; exigir direitos animais parece utópico dentro desse sistema.

Só que o sistema é foda. Tudo é tão natural e fluído que a gente nem percebe todas as opressões das quais somos vítimas e algozes todos os dias.

Nesse sentido, entendo que ser de esquerda é reconhecer os privilégios e passar a negá-los.

Pra mim, me parece incoerente lutar contra a opressão do grande capital sobre os trabalhadores e não pensar na opressão do marido sobre a esposa; me parece incoerente que a revolução seja encabeçada por pessoas brancas; me parece incoerente que as pessoas trans sejam colocadas às margens até do movimento revolucionário; me parece incoerente que lutemos contra o fim da exploração enquanto colocamos o homem no “topo da cadeia alimentar” e fazemos todo e qualquer tipo de atrocidade contra a natureza.

E se o objetivo é derrubar o sistema, um bom começo é quebrar os paradigmas tão bem solidificados que ele construiu sob a gente.

10 setembro 2015

Esquerda x esquerda

Mas a questão decisiva é qual sistema estamos querendo derrubar – ou, ainda, que sistema queremos colocar no lugar? Na França Napoleônica, ser de esquerda era se opor à monarquia; no socialismo do século XX, estar à esquerda era ser contra o capitalismo. Só que já nessa época já se discutia o que ia ser colocado no lugar; ou, antes disso, como faremos pra derrubar o grande capital.

Meus amigos de facebook são, em sua maioria, de esquerda; mas isso não quer dizer que todos têm a mesma concepção de esquerda; nem que eles concordem na maioria de seus pontos. Pode-se dizer que todos têm como ponto comum que o lucro não deveria estar sobre o interesse coletivo. Mas acho difícil dizer que todos eles são anticapitalistas – assim, com todas as letras.

Mesmo aqueles que são contra o Capital – aqueles que leram Marx e tal… mesmo eles não tem em comum o modus operandi da derrubada de poder. Alguns acreditam na ruptura, na revolta armada; outros acreditam numa transição, longa e dolorida, no dia a dia, até que o sistema se esvaia. E, mesmo assim, depois que o capitalismo estiver derrubado, não há um consenso sobre o que deve existir no lugar; socialismo, comunismo, anarquia, anarco-socialismo, anarco-comunismo, anarco-cristianismo, anarco-capitalismo (?), et cetera.

E, além disso, se a esquerda são os opositores do sistema, convém definir o que é o sistema. Ora é o Capital o grande mal? mas e as outras opressões? O capitalismo divide as pessoas entre as que detêm o poder e as que são exploradas (e ainda as marginalizadas, que nem sequer têm acesso ao sistema). Há outros sistemas de opressão paralelos, subjacentes ou permeados ao capitalismo; as coisas ficam mais fáceis para quem é humano, rico, do sexo masculino, branco, heterossexual, cisgênero, letrado, sem deficiências físicas ou mentais, e/ou detentor de algum outro privilégio que não mencionei ou sequer sei que existe.

Há esquerdas que acreditam que o capitalismo é o mal maior e que se ele deixar de existir todos os outros problemas somem; ou aqueles que acreditam que os problemas devem ser tratados um de cada vez, a começar pelo capitalismo. E há a esquerda que acredita que todas as formas de opressão devem ser combatidas, uma a uma. E todos os nuances possíveis de o que é considerado uma pauta de luta.

Tentar definir tudo isso mostra que, sem dúvida, o rótulo de “esquerda x direita” é bastante vago. O que não significa de maneira alguma que devamos deixar de usá-lo. Embora não haja uma unidade dentre os participantes desse grande balaio da esquerda, há ainda a clara distinção entre os que acreditam no sistema e os que lutam para derrubá-lo.

03 setembro 2015

À esquerda ou à direita

Em qualquer debate político, acaba sempre vindo à tona a discussão de esquerda versus direita. Muito se fala sobre isso e muito se pergunta se ainda faz sentido em falar disso; e sobre isso há quem diga que quem pergunta se ainda existe esquerda só pode ser alguém de direita.

Historicamente, chamou-se de esquerda aqueles contrários ao sistema vigente; e de direita aqueles que o defendiam. O termo surgiu na França em relação aos deputados que apoiavam a monarquia ou queriam instaurar a república. E, com o passar dos anos, os termos passaram a indicar quem era partidário do sistema vigente versus quem era contra.

Hoje, para o bem e / ou para o mal, vivemos no sistema capitalista. O que, em 140 caracteres, significa que podemos trocar nossa força de trabalho por bens de consumo e bem-estar. Em tese, quem produz mais (em termos materiais e simbólicos) adquire poder para ter mais.

Mas esse sistema, claro – como, imagino, qualquer outro – tem problemas. E a maneira de encarar esses problemas é que define se estamos mais à esquerda ou mais à direita. Em miúdos, a esquerda diz que esse sistema é ruim e precisa ser substituído. A direita diz que os problemas são, na verdade, do ser humano e que não tem nada errado com o modelo. Aí tem a galera de centro, que admite um problema ou outro, mas diz que o sistema não é tão ruim assim – e vice-versa.

Na lógica do sistema capitalista, todos aqueles que obtiverem sucesso com seu trabalho poderão acumular bens – ou, em outras palavras, ficarão ricos. Só que para que alguém possa prosperar com o capitalismo alguém tem que ter que vender seu trabalho recebendo menos do que ele vale. Para que alguém possa prosperar no capitalismo, alguém, necessariamente, precisa sofrer, ser pobre – nem que seja num distante país lá do outro lado do mundo.

A direita encara isso como um mal necessário. O capitalismo permite que pessoas possam passar do grupo dos pobres para o grupo dos ricos – e o contrário também. O sistema beneficia aqueles que se esforçam para criar e aproveitar todas as oportunidades no seu caminho. Há casos de pessoas pobres que passaram a ser ricas; e há casos de pessoas ricas que ficaram pobres. Segundo a direita, é graças a essa desigualdade entre pobres e ricos que a humanidade evolui; é para ficar rico que as pessoas inventam e acordam cedo e movem as roldanas do mundo.

A esquerda, por sua vez, acredita que essa desigualdade entre as pessoas é inaceitável. A esquerda foca no fato de que é mais fácil prosperar dentro do capitalismo se você tem dinheiro. No mundo capitalista, dinheiro faz dinheiro; trabalho, não necessariamente.

E a galera do centro acha que uma desigualdadezinha é necessária (pra incentivar uma competição), mas que não precisa ninguém morrer de fome. O centro acredita que o capitalismo só precisa de umas reformas.

Isso resume (mal e porcamente) o que entendo do espectro direita x esquerda em relação ao capitalismo – mas nem de longe encerra a discussão. No mundo real, o buraco é sempre mais embaixo.


24 outubro 2010

Política, política e política

Tudo na mesma época: eleições, greve dos servidores públicos de São José dos Pinhais e Tropa de Elite II. Estive envolvido quase que 24 horas por dia com política – e olha que logo na minha primeira postagem por aqui me declaro apolítico. Na verdade, não gosto de me engajar politicamente; por dois motivos: não entendo da coisa (e o pior: não me interesso em entender) e (pelo pouco que sei) por saber que política é feita de todo mundo e esse todo mundo não está muito interessado em fazer diferente ou, pelo menos, em entender como as coisas estão funcionando.

O filme Tropa de Elite II é uma ótima ferramenta para desmotivar todos os lampejos de esperança em relação à política daqueles que, como eu, tiveram um momento de reflexão e concluíram que tem algo de errado no mundo e que algo precisa ser feito. A maneira como a corrupção de caráter está entranhada na política de nosso país é algo (na minha opinião nessa semana) insolúvel; teria que haver uma mudança na forma de pensar de toda uma população, uma mudança de postura, de valores. Talvez (sejamos otimistas), as próximas gerações, uma a uma, despertem aos poucos essa consciência e daqui algumas décadas isso tudo mude.

Enquanto isso, os servidores públicos de São José dos Pinhais ficaram mais de uma semana em greve – na tentativa de fazer mudar um pouco o que está errado no nosso país. As leis que regem os cargos e salários dos servidores de São José dos Pinhais estão desatualizadas e (em minha opinião) desmotivadoras. Com a revisão feita em 2004, cargos foram extintos e novos cargos foram criados; o problema se deu com os servidores contratados para esses antigos cargos: eles recebem menos que os que hoje são contratados para fazer as mesmas funções e/ou, no caso de vacância de suas vagas, empregados terceirizados são contratados.

A política de terceirizações empobrece a qualidade do serviço e, pior, abre muita margem para que o dinheiro público seja desviado. Sei que há teóricos políticos que defendem a descentralização do serviço público, que não deveria caber ao Estado a responsabilidade de todo tipo de prestação de serviço, que as terceirizações agilizam muitos processos – dada a necessidade de impessoalidade e, consequentemente, da burocracia do serviço público –, mas, por outro lado, esses mesmos teóricos são contra as altas taxas de impostos cobradas pelo Estado. Ou seja, se o dinheiro arrecadado for bem aplicado, não há a necessidade de terceirizações; o próprio serviço público pode ser prestado com qualidade. Mas não é o que pensam os neo-liberais. Não tenho embasamento suficiente para me enveredar por essa discussão, mas acho ela bastante produtiva.

Na verdade, cada um desses temas cabem em uma redação só pra ele, mas eu não estou de verdade preocupado em discutir essas mesmas coisas. Não faço questão de me lembrar disso no futuro, por isso não vou desenvolver a fundo esses temas. Registro aqui apenas para poder lembrar que minha esperança na política desse país diminui com o passar dos anos.

03 outubro 2010

Politik

Politicamente falando, ser brasileiro significa ser alguém que não acredita que possa ser possível ver uma luz no fim do túnel; significa não acreditar nas pessoas e não confiar em estranhos – assim como se espera que ninguém confie em você.

Me indigna saber que o povo de fato elegeu o Tiririca. Nada contra ele, não o conheço de verdade para poder tirar conclusões; mas acho que não podemos esperar muito de alguém que admite nem saber o que um deputado federal faz. Mas não me surpreende o fato de ele ter sido eleito: só prova que o povo que o elegeu (que somam quase um milhão de pessoas) também não sabe para que serve um deputado federal.

Brasileiro não tem cultura política. Mas não quero aqui investigar e tentar achar onde tudo começou. É apenas no quarto ano do ensino fundamental que aprendemos sobre os três poderes – depois, nunca mais! Mesmo o melhor aluno da classe, depois de, pelo menos sete anos (se ele votar com 16), não vai lembrar que um deputado faz parte do poder legislativo e não tem o poder de fazer obras. Ou seja, não adianta votar no deputado que prometeu fazer asfalto na sua rua.

E, acreditando nas conspirações contra os parâmetros curriculares nacionais, não é interessante pro governo mudar isso. Cidadãos críticos não aceitariam corrupção nem candidatos com propostas pouco promissoras nem, muito menos, candidatos que não sabem o que faz um deputado federal.

A culpa de a nossa política ser assim não é só dos eleitos, nem só dos eleitores; os dois grupos são formados por pessoas que não sabem o que querem. Falar que não gosta de política não é algo imoral em nossa sociedade; em qualquer conversa despretensiosa você vai poder dizer que não acredita na política, que você vai anular seus votos, que políticos são todos corruptos, que de nada adianta mudar os cabeças, que a sujeira vai continuar; não é feio ser apolítico.

Por isso que pra mim parece uma coisa de outro mundo o fato de ter sido o povo o responsável pelo impeachment do Collor em 1992. Se o povo nem sabe pra que serve o presidente, como pôde ter o engajamento político suficiente para ir às ruas e derrubá-lo? Eu infelizmente prefiro acreditar nas teorias de conspiração de manipulação midiática e nas lorotas de além do cidadão Kane.