o sim e o não, o alfa e o ômega, a langue e a parole, o yin e o yang.

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19 abril 2016

E o impeachment, ein?

Para entender as pedaladas fiscais:

Era fim de mês e acabou faltando dinheiro pra comprar comida. Sem falar nada, o marido foi lá e usou o cartão de crédito. Na semana seguinte veio a conta e ele já tinha o dinheiro e pagou tudo direitinho.

E aí a esposa descobriu que ele fez isso sem consultá-la.

Ela deve pedir o divórcio?

Aí ela pergunta pros filhos: "pedalada fiscal deve ser considerado crime de responsabilidade?".

impítximã
E eles respondem:
- pelo Tobi, o cachorro, eu voto sim!
- por causa da janela do meu quarto, eu voto sim!
- em homenagem aquele cara que bateu no papai aquela vez até quebrar os dentes e entortar a mandíbula, eu voto sim!

O outro filho disse que o pai merece um puxão de orelha e que ele deve avisar sempre que for sair do combinado e que o divórcio deve ser pedido se ele fizer alguma coisa mais grave.

As outras crianças alegaram que ele só disse isso porque o pai dá pão com mortadela pra ele.

05 abril 2016

o Facebook e a nossa visão de mundo

Não diria que é da natureza humana; diria, talvez, que é da natureza das sociedades humanas ou, pelo menos, das sociedades ditas modernas. A gente tende a procurar informações que complementem aquilo que a gente já pensa; a gente sempre tenta andar com pessoas que concordam com a gente. O Facebook sabe disso e nos alimenta só com notícias que a gente quer ouvir – ou, no mínimo, aquilo que o Facebook quer que a gente queira ouvir.

Estudos apontam que 96% dos jovens brasileiros acessam a internet todos os dias; e que, desses, cerca de 80% acessam as famigeradas redes sociais. Isso quer dizer que a maior parte da juventude brasileira se comunica pelo feice ou pelo zapzap. O que, por um lado, é ótimo, já que cada vez mais a galera está se informando por meios alternativos; e, por outro lado, é péssimo, já que cada vez mais a galera está se informando por meios alternativos.

Por razões que vale a pena discutir, as pessoas, que até bem pouco tempo enchiam a boca pra falar que não gostavam de política, hoje estão discutindo política. As discussões ainda estão bastante superficiais e enviesadas, mas pelo menos elas acontecem. O problema é a falta de criticidade das pessoas; as pessoas acreditam em tudo que o william boner diz e em tudo que os memes dizem.

(Paweł Kuczyński)
E, graças a essa mesma internet, um outro grupo de pessoas se interessou por política e teve a paciência de pesquisar e ir atrás e tentar entender como funcionam as coisas e comparou visões contraditórias e procurou formular sua própria opinião. 

Só que pra essa geração o Facebook ainda é o principal meio de comunicação; ou, no mínimo, um ponto de partida. As pessoas podem até curtir páginas de conteúdo bastante variado e ser amigo de gente de todos os naipes; mas o Facebook, com uma lógica que só ele entende, decide o que aparece no seu feed de notícias. Assim, os pontos de vista que a gente vê no feed são cada vez mais parecidos com os nossos.

E, pra essa geração que ainda está na adolescência da internet, isso só pode ser ruim. Em tempos de extremismos e gente inflamada, ouvir apenas aquilo que nos agrada nos leva a extremizar ainda mais nossas posições. Quando eu apenas ouço a respeito de A, o B vai se tornando cada vez mais caricato e irreal; o A passa a ser a verdade e o B, por ser o inimigo, vai tomando as feições de tudo aquilo que a gente tem medo ou não quer que aconteça.

Disso é fácil chegar na conclusão de que petralhas adoram o demônio e que coxinhas querem a volta da escravidão. 

Embora você provavelmente só tenha chegado nesse texto justamente devido ao Facebook, o ideal seria que a gente saísse de lá e se comunicasse por meios mais democráticos. Mas, pensando no uso que a gente tem feito dele – ler as manchetes, curtir as fotos e ir pra próxima postagem –, acho que não nos livramos dele tão cedo.

20 março 2016

E o Lula, ein?

Nos últimos dias, milhões de brasileiros foram às ruas mostrar sua indignação com a situação política do nosso país. As análises sempre nos apontam uma polarização política: como se nessa discussão existissem apenas dois lados, como se só existisse um muro pra ficar em cima. A mídia faz acreditar que ou se apoia o impeachment (ou o golpe) ou se defende a democracia (ou o governo corrupto do pt); sendo que na verdade o buraco é muito mais embaixo e não só dois lados nesse debate.

Numa análise bem superficial, dá pra ver pelo menos dois antagonismos: de um lado os que defendem a saída de Dilma da presidência, uma vez que com os casos denunciados de corrupção a sua permanência não se sustenta; e, do outro lado desse cabo de guerra, estão os que defendem que as acusações é que não se sustentam e que ainda não há provas concretas contra ela e que ela precisa antes ser condenada para depois ser impedida. Numa outra polarização, estão os que acusam a mídia e o judiciário de serem parciais e tentarem manipular a opinião pública a fim de tirar do governo o partido que ganhou as eleições; e, nessa disputa, os contrários apontam que a justiça está apenas fazendo o seu trabalho (“agora os corruptos do pt, depois todos os outros”).

Me parece que essas polarizações só empobrecem o debate; me parece muito ingênuo acreditar em soluções tão simples pra um momento tão delicado como o que estamos vivendo. Mas, mesmo assim, na minha superficialidade e assumida ingenuidade, levanto alguns questionamentos.

As principais acusações contra o governo vieram da Operação Lava Jato (ou Lava-Jato ou Lavajato?); a principal delas vieram de um senador (ex-)petista, que, depois de ser pego, acusou todo mundo do governo no seu acordo de delação premiada. Eu questiono se não poderia existir interesses do senador em fazer essas acusações, sem poder prová-las, apenas para denigrir o governo. Ou, pior: e se lhe pagaram propina para que ele fizesse essas acusações a fim de beneficiar alguém – afinal, ele já foi preso por corrupção, não é?

E muito foi discutido sobre a quantidade de pessoas que foram às ruas. Os organizadores do protesto verde-amarelo e a mídia disseram que esse foi maior; os organizadores das manifestações vermelhas disseram que seu protesto foi mais representativo. Cada um dos dois grupos dizendo representar a vontade do povo. Concordo com o argumento de que, se fosse pra disputar em número de pessoas, deveria prevalecer o resultado das urnas em 2014.

Mas, por outro lado, quem deveria ser responsável em destituir um presidente (ou qualquer cargo eletivo) deveria ser os responsáveis por elegê-lo; assim, caberia ao povo decidir sua saída, e não o legislativo. Ou seja, o passo final do rito do impeachment deveria ser um referendo popular convocado para destituir ou não a pessoa eleita. Só que, antes, a pessoa precisaria, com direito a defesa, ser condenada judicialmente. Porque não faz sentido destituir uma pessoa eleita porque ela não agrada quem não votou nela.

Só que o debate não se encerra nesta questão, tem muita lenha pra ser jogada nessa fogueira ainda.

31 outubro 2015

Sobre ENEM e violência contra mulher e ser babaca

Há poucos dias 7milhões de brasileiros fizeram a prova do ENEM. No sábado teve Marx e Beauvoir; no domingo, uma redação sobre violência contra a mulher. E, por isso, as pessoas entraram em frenesi porque a prova era esquerdista e doutrinadora marxista e tudo que há de ruim no mundo.

No facebook só se falou disso – o que é excelente! Se por um lado teve gente que comemorou que essas coisas estejam sendo colocadas em debate, teve gente que disse que a prova não era imparcial, que 31% das questões eram de esquerda, que é o PT, que não existe violência contra mulher – existe violência. E tantas outras babaquices.

Antes de qualquer coisa, é preciso ter em mente que simplesmente não existem Ciências Humanas sem ideologia; não existe essa tal de imparcialidade que os críticos da prova almejam. No extremo, não existe ciência sem ideologia. Já li vários estudos científicos defendendo que o homem precisa de alimentação a base de carne e vários estudos defendendo justamente o contrário; vira e mexe aparece na mídia estudos dizendo que ovo é vilão ou mocinho – isso só pra falar de alimentação.

Então, quando uma pessoa vai lá e faz um estudo e diz que “a globalização gera desemprego”, ela não tá apenas dizendo a opinião dela, é sim uma afirmativa científica, que sim gera debates e estudos que digam o contrário. Quando colocaram essa questão na prova, sabiam que essa questão era “ideológica”, mas sabiam que seria ideológica se eles colocassem um autor que dissesse qualquer outra coisa.

Simone de Beauvoir disse coisas que abalaram o pensamento de sua época. E, ironicamente, a rejeição foi em grande parte não por ela defender as mulheres, mas por ser mulher. E é irônico pensar que a rejeição em relação a ela, cinquenta anos depois, ainda é pelos mesmos motivos. A questão do ENEM não perguntava se era certo ou errado o que ela dizia, nem que devemos sair queimando sutiãs ou dizendo que mulheres devem ser tratadas como gente. A prova levantava a relação entre o pensamento filosófico dela e sua relevância histórica.

A prova foi tachada de esquerdista, comunista e o diabo aquático. Mas não existe relação entre ser de esquerda (ou de direita) e ser (ou não) um babaca. A redação no domingo propunha que o aluno discorresse sobre a violência contra a mulher; o aluno era convidado a pensar sobre o assunto e posicionar-se criticamente, oferecendo possíveis soluções para o problema. E isso não tem nada a ver com espectro político: a defesa dos direitos humanos é um dever de pessoas civilizadas!

As pessoas que demonizaram a prova não são pessoas de direita, são analfabetos políticos. A militância de esquerda que o Brasil precisa não é contra pessoas de direita – essas, infelizmente, conheço poucas; a militância é contra um conservadorismo ignorante que não estudou mais do que o mundo em que ele vive, incapaz de se por no lugar do outro, seja quem for.

Uma vitória dessa prova foi trazer essas questões para a discussão. Obrigatoriamente, 7milhões de brasileiros tiveram que pensar sobre violência contra a mulher; por tabela, o assunto foi trazido às rodas de discussão de outros milhões de brasileiros. Debater o assunto não é nem de longe suficiente para resolver o problema, mas faz com que as pessoas reflitam e se posicionem e comecem a mudança. Quem sabe daqui alguns séculos mulheres não sejam mortas simplesmente por serem mulheres.

02 outubro 2015

A academia e a educação básica

Ter estudado Letras enquanto trabalhava numa escola pública me fez enxergar o quanto o que é estudado na faculdade está longe do que de fato se trabalha em sala de aula. Por muitos anos a concepção de ensino de língua materna na escola nada teve a ver com o objeto de estudos da linguagem na academia. Enquanto a academia tentava entender como a língua funciona, tanto em seus aspectos internos quanto em termos de sociedade, a escola passava o século inteiro preocupada em ensinar a ler e escrever.

E justamente por ter se adentrado em questões muito mais profundas do que o lugar em que a escola parou, a academia está discutindo questões que parecem irrelevantes pra sala de aula. E por não ter acompanhado a discussão (que já tem quase um século), a educação básica está muito longe de absorver o que a academia tem produzido. Aí, agora que a escola resolveu ir um pouco além de apenas ensinar a ler e escrever, os estudos acadêmicos parecem não ajudar em nada – e de fato não ajudam.

A academia deixou de se preocupar com a educação básica; se a escola não está interessada em ir além do bê-á-bá, é inócuo despender esforços pra tentar pensar e repensar quais são os conteúdos necessários em cada fase do aprendizado. De tempos em tempos, surgem algumas discussões; em 1997, por exemplo, o governo federal estabeleceu parâmetros curriculares, a fim de estabelecer quais seriam os conceitos que deveriam ser trabalhados em sala de aula. E, pouco antes disso, em 1996, com a LDB, a educação se universalizou e a escola passou a não ser mais exclusividade da elite econômica, com isso vieram outras dificuldades que não estavam nos manuais produzidos até então. E, hoje, quase vinte anos depois, a escola ainda está, como antes, muito mais preocupada em ensinar a ler e escrever do que discutir o que deve ser corrigido nos PCNs. Como os parâmetros não chegaram a ser aplicados, a gente não consegue medir o quanto não são eficientes.

E isso acontece principalmente porque as pessoas que pesquisam na academia não são as mesmas pessoas que estão em sala de aula; é muito mais difícil pesquisar sobre uma realidade que você não vive todo dia; da mesma forma que a realidade não vai ser pesquisada se as pessoas que a vivem não se envolvem com a pesquisa. É preciso questionar o que a academia tem dito com base no que acontece de fato nas salas; e isso não quer dizer que a teoria está errada e por isso deve ser jogada fora, mas que ela precisa acolher a diversidade de alunos e se adaptar a outras realidades. Se na prática a teoria não funciona, a teoria precisa se adaptar.

A fim de se resolver isso, os professores da educação básica precisariam fazer parte da academia e vice-versa. A academia precisa chegar na sala de aula. Se algum político tivesse a preocupação de fazer alguma coisa pela educação, o primeiro passo seria investir em plano de carreira e formação continuada. Da mesma forma que acredito que só consegue fazer alguma diferença pela educação o professor que está constantemente se questionando e adaptando sua prática.

01 outubro 2015

Livre Mercado Uber Alles

Pra mim não faz sentido proibir o tal do Uber. Caso eu ache o ensino público ruim, eu tenho o direito de abrir uma escola behaviorista que prega que a vida, o universo e tudo mais tenham sido criados em seis dias; mas, se eu achar que o serviço de transporte da minha cidade é ruim, fodse, eu não tenho o direito de abrir uma empresa de transporte que seja boa.

Dentro da lógica de mercado do nosso país, a gente pode explorar alguns serviços livremente. Mas outros ficam “monopolizados” pelo governo; é o caso da exploração de petróleo, por exemplo. Já outros serviços são concessionados; isso quer dizer que o governo não é capaz de oferecer serviços de qualidade naquela área e prefere deixar que empresas privadas especializadas lucrem com aquela atividade – é o caso das estradas pedagiadas e dos canais de tv e de rádio.

E, por algum motivo que desconheço, os táxis e o transporte público em geral é setorizado e concessionado pra sempre. Por um lado, entendo que não seja interessante pro interesse do país que seja liberado pra que quem quiser a abertura de estradas privadas – tipo, uma do lado da outra disputando entre si os trechos onde tem mais movimento; e entendo que tem que haver algum tipo de controle sobre quem controla os canais de tv, pra que não haja mil canais interferindo no sinal um do outro – embora não ache que as licenças devam ser vitalícias como são e livres pra fazer o que quiserem. Mas, por outro lado, acho meio absurdo que um serviço tão essencial como o transporte seja monopolizado. Até entenderia se fosse monopolizado pelo estado; mas não me parece fazer sentido ser monopolizado por grupos de empresas concessionadas.

Do mesmo jeito que acho que, embora dever do estado, a escola não deve ser exclusividade do estado, acho que o estado pode, sim, concessionar os táxis pra certas empresas, mas subsidiando para garantir qualidade e preço baixo; assim, a galera do Uber ia ter dificuldades para conseguir fazer um serviço sofisticado e barato; o usuário ia ter que escolher entre ter um serviço mais requintado porém caro ou um serviço mais simples só que barato. Ou liberar de uma vez pra iniciativa privada!

(semana passada eu tava aqui defendendo a esquerda e sei lá o que mais e agora tô aqui falando de livre mercado e liberalismo e mises e)

Acho que o governo só precisa fazer uns ajustes pra que o Uber se encaixe dentro dos moldes das empresas brasileiras, que cumpra seus deveres e que vendam seu produto como qualquer outro fornecedor de serviços.

23 setembro 2011

Clandestino

Já cheguei a pensar que pra consertar o Brasil seria necessária uma reforma geral no sistema judiciário; afinal, é culpa dele que ladrão de galinha pegue prisão perpétua e filho de político mesmo tendo roubado, estuprado e esquartejado a galinha é liberado impunemente.

Uma solução pra essa impunidade seria existir uma comissão em vez de UM juiz por caso; a chance de os valores morais do indivíduo serem levados em consideração seria menor – a justiça, desta forma, seria mais cega. 

Outra alternativa seria fazer com que existissem mandatos para o judiciário – se os outros dois poderes funcionam assim, por que não esse também? Claro que, ao contrário dos outros dois poderes (se bem que questiono isso), no judiciário não poderia haver gente desqualificada; por isso, não seria uma má ideia fazer concurso público para o mandato – cinco, dez anos, no máximo. Se assim fosse, um juiz “jovem” não levaria em conta valores morais de trocentos anos atrás para tomar uma decisão.

Entretanto, mesmo ainda concordando com essas ideias, acho que só isso não bastaria. Como na maioria das mudanças que esse país precisa, uma revolução não resolveria; seria necessária uma mudança muito grande no jeito com que os brasileiros lidam com a lei. 

Não sei como é isso nos outros países; pode ser que, na pior das hipóteses, esse seja um problema do ser humano. 

Pra gente – e desde cedo somos incentivados a acreditar nisso –, burlar uma lei e não ser pego é atitude de gente esperta. Conseguir passe-escolar, vale-gás, bolsa-família, seguro-desemprego, mesmo não atendendo as exigências mínimas, é golpe de mestre, digno de orgulho. No trânsito, errado é aquele que segue as leis de trânsito e, feito um idiota, anda a 40km nas ruazinhas de seu bairro. O problema de andar acima do limite ou sem cinto ou sem sinalizar nada tem a ver com segurança, mas com a presença ou não de um guarda ou de um radar. 

Enquanto na nossa cultura a gente acreditar que o único mal de infligir a lei é a punição que pode nos assolar, não vai servir de nada nem um tipo de reforma ou revolução nas leis ou na forma como elas são criadas. Enquanto isso, o Tiririca pode continuar lá – ou o macaco Tião.

12 julho 2011

Sobre o direito à fofoca

Graças a ferramentas como o Twitter e toda a parafernalha da web 2.0, todo mundo agora tem opinião e voz. Some-se a isso a era do politicamente correto e o pseudomoralismo e temos um balde de hipocrisia.

Tomemos como exemplo Os Trapalhões: grande sucesso de audiência e era considerado engraçado de verdade! E ainda o é, de fato. No entanto, é um humor estereotípico e preconceituoso. O negro bêbado, o playboy com trejeitos homossexuais, o caipira ingênuo e o nordestino malandro. Hoje já não se faz humor desse jeito, o que significa, é óbvio, que não temos mais esse tipo de preconceito no país.

Um parêntese: piada de loira ainda pode – v. Zorra Total.

Aí, no meio desse angu, o Rafinha Bastos vem e faz piada com estupro. Pronto: foi crucificado, morto e sepultado. A mesma coisa com o Von Trier, que disse que gosta do nazismo. Não quero dizer que defendo a ideia deles; estou aqui defendendo o direito de eles exporem o que quer que pensem. Matar judeus é crime, discordar deles não é pecado. Discordo completamente do Bolsonaro e da Igreja Católica, mas defendo o direito de eles falarem o que quiserem.

A não ser, evidentemente, que alteremos as leis – para “todos devemos concordar com a opinião do monarca”, por exemplo. Enquanto isso não acontece, todas as opiniões deverão ser ouvidas e a da maioria acatada, se é que entendi o que é democracia.

01 fevereiro 2011

Entre os Muros

Acabei de assistir o filme “Entre os Muros da Escola”, um filme francês em que um professor de uma escola de subúrbio da França lida com os problemas de uma sala de aula de 7ª série. E pensando nos problemas que vejo na educação pública brasileira, mais precisamente na escola de anos iniciais do Ensino Fundamental em que trabalho, dá pra dizer que escolas de periferia não diferem tanto assim umas das outras.

Quando entrei na faculdade, eu tinha a intenção de ser professor, mas, com o passar dos anos, essa vontade foi diminuindo, justamente por não me sentir motivado e atraído em lidar com problemas como os tratados no filme. No entanto, quase que na mesma proporção que diminuiu minha vontade de dar aula para os adolescentes, aumentou meu interesse pelo primário.

Diferente dos adolescentes, que, por natureza, são questionadores e contestadores, as crianças, de 6 a 10 ou 11 anos, são mais obedientes e interessadas pelo estudo; a escola ainda lhes causa fascínio, eles têm vontade de aprender. Conforme envelhecem, por motivos especuláveis, mas não óbvios – se sócio-culturais ou por erro da Escola, que não consegue manter a motivação ou se são fatores biológicos que impedem os adolescentes de gostarem do ambiente escolar –, as aulas são cada vez menos interessantes para os alunos.

Acredito que a Escola tenha culpa nesse desinteresse dos alunos; se, nos primeiros anos, os alunos têm entusiasmo pelo aprender, cabe ao professor encontrar um meio de manter essa chama acesa e evitar que o tempo a apague. E isso significa fazer com que os alunos aprendam a aprender e saibam pra que eles vão à escola.

Sempre critiquei esse método, tão tradicionalmente usado, mas que, felizmente, tem sido aos poucos superado: na escola se ensina como faz, mas pouco se fala aos alunos do porquê. Quanto à produção textual, por exemplo, muito se ensina às crianças sobre gramática e ortografia e muito pouco sobre a função dos textos que produzem.

Outra coisa que vi no filme e que me chamou a atenção foi a postura profissional dos professores. Na escola em que trabalho, os professores (a generalização é exagerada e de propósito) se envolvem muito pessoalmente com os problemas da escola, e isso, além de desgastá-los – e, consequentemente, estressá-los –, faz com que os problemas sejam resolvidos emocionalmente e não racionalmente, como é de se esperar de profissionais.

Não posso dizer que vou poder ser a peça que faltava para corrigir a educação brasileira; é sempre, evidentemente, mais fácil apontar os erros quando se olha de fora; mas vê-los me fez querer estar lá para poder tentar fazer alguma coisa para, pelo menos, diminuí-los; estou disposto a fazer a minha parte para tentar mudar as coisas.

Sempre ouvimos que a educação no Brasil não tem conserto, que os problemas de nosso país tomaram proporções muito grandes. O filme, todavia, mostra que nossos problemas não são tão locais assim, e que, se o Brasil não tem solução, a França também não tem.

24 outubro 2010

Política, política e política

Tudo na mesma época: eleições, greve dos servidores públicos de São José dos Pinhais e Tropa de Elite II. Estive envolvido quase que 24 horas por dia com política – e olha que logo na minha primeira postagem por aqui me declaro apolítico. Na verdade, não gosto de me engajar politicamente; por dois motivos: não entendo da coisa (e o pior: não me interesso em entender) e (pelo pouco que sei) por saber que política é feita de todo mundo e esse todo mundo não está muito interessado em fazer diferente ou, pelo menos, em entender como as coisas estão funcionando.

O filme Tropa de Elite II é uma ótima ferramenta para desmotivar todos os lampejos de esperança em relação à política daqueles que, como eu, tiveram um momento de reflexão e concluíram que tem algo de errado no mundo e que algo precisa ser feito. A maneira como a corrupção de caráter está entranhada na política de nosso país é algo (na minha opinião nessa semana) insolúvel; teria que haver uma mudança na forma de pensar de toda uma população, uma mudança de postura, de valores. Talvez (sejamos otimistas), as próximas gerações, uma a uma, despertem aos poucos essa consciência e daqui algumas décadas isso tudo mude.

Enquanto isso, os servidores públicos de São José dos Pinhais ficaram mais de uma semana em greve – na tentativa de fazer mudar um pouco o que está errado no nosso país. As leis que regem os cargos e salários dos servidores de São José dos Pinhais estão desatualizadas e (em minha opinião) desmotivadoras. Com a revisão feita em 2004, cargos foram extintos e novos cargos foram criados; o problema se deu com os servidores contratados para esses antigos cargos: eles recebem menos que os que hoje são contratados para fazer as mesmas funções e/ou, no caso de vacância de suas vagas, empregados terceirizados são contratados.

A política de terceirizações empobrece a qualidade do serviço e, pior, abre muita margem para que o dinheiro público seja desviado. Sei que há teóricos políticos que defendem a descentralização do serviço público, que não deveria caber ao Estado a responsabilidade de todo tipo de prestação de serviço, que as terceirizações agilizam muitos processos – dada a necessidade de impessoalidade e, consequentemente, da burocracia do serviço público –, mas, por outro lado, esses mesmos teóricos são contra as altas taxas de impostos cobradas pelo Estado. Ou seja, se o dinheiro arrecadado for bem aplicado, não há a necessidade de terceirizações; o próprio serviço público pode ser prestado com qualidade. Mas não é o que pensam os neo-liberais. Não tenho embasamento suficiente para me enveredar por essa discussão, mas acho ela bastante produtiva.

Na verdade, cada um desses temas cabem em uma redação só pra ele, mas eu não estou de verdade preocupado em discutir essas mesmas coisas. Não faço questão de me lembrar disso no futuro, por isso não vou desenvolver a fundo esses temas. Registro aqui apenas para poder lembrar que minha esperança na política desse país diminui com o passar dos anos.

03 outubro 2010

Politik

Politicamente falando, ser brasileiro significa ser alguém que não acredita que possa ser possível ver uma luz no fim do túnel; significa não acreditar nas pessoas e não confiar em estranhos – assim como se espera que ninguém confie em você.

Me indigna saber que o povo de fato elegeu o Tiririca. Nada contra ele, não o conheço de verdade para poder tirar conclusões; mas acho que não podemos esperar muito de alguém que admite nem saber o que um deputado federal faz. Mas não me surpreende o fato de ele ter sido eleito: só prova que o povo que o elegeu (que somam quase um milhão de pessoas) também não sabe para que serve um deputado federal.

Brasileiro não tem cultura política. Mas não quero aqui investigar e tentar achar onde tudo começou. É apenas no quarto ano do ensino fundamental que aprendemos sobre os três poderes – depois, nunca mais! Mesmo o melhor aluno da classe, depois de, pelo menos sete anos (se ele votar com 16), não vai lembrar que um deputado faz parte do poder legislativo e não tem o poder de fazer obras. Ou seja, não adianta votar no deputado que prometeu fazer asfalto na sua rua.

E, acreditando nas conspirações contra os parâmetros curriculares nacionais, não é interessante pro governo mudar isso. Cidadãos críticos não aceitariam corrupção nem candidatos com propostas pouco promissoras nem, muito menos, candidatos que não sabem o que faz um deputado federal.

A culpa de a nossa política ser assim não é só dos eleitos, nem só dos eleitores; os dois grupos são formados por pessoas que não sabem o que querem. Falar que não gosta de política não é algo imoral em nossa sociedade; em qualquer conversa despretensiosa você vai poder dizer que não acredita na política, que você vai anular seus votos, que políticos são todos corruptos, que de nada adianta mudar os cabeças, que a sujeira vai continuar; não é feio ser apolítico.

Por isso que pra mim parece uma coisa de outro mundo o fato de ter sido o povo o responsável pelo impeachment do Collor em 1992. Se o povo nem sabe pra que serve o presidente, como pôde ter o engajamento político suficiente para ir às ruas e derrubá-lo? Eu infelizmente prefiro acreditar nas teorias de conspiração de manipulação midiática e nas lorotas de além do cidadão Kane.